Maceió, 22 de abril de 2026

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Epidemias em Alagoas no século XIX mudaram rituais e regras de saúde

Livro de Oseas Batista Figueira mostra como cólera, varíola e febre amarela influenciaram o higienismo e até o fim dos enterros dentro das igrejas
A ORDEM MÉDICA SOBRE O ALAGADIÇO: HIGIENISMO E EPIDEMIAS NA ALAGOAS OITOCENTISTA (1850-1882)

por Samella Velez

A pandemia de Covid-19 fez o mundo mudar de repente. Máscaras, isolamento e novas regras mexeram na rotina e mostraram que, diante de uma crise sanitária, a sociedade precisa se adaptar. Mas essa transformação não começou agora. No século XIX, Alagoas já enfrentava surtos de cólera, febre amarela e varíola e viveu mudanças profundas por causa disso.

É isso que o historiador Oseas Batista Figueira apresenta no livro “Ordem Médica Sobre o Alagadiço: Higienismo e Epidemias na Alagoas Oitocentista (1850-1882)”. A pesquisa analisa como essas doenças afetaram a vida na Província e como o discurso médico e político da época buscou controlar o avanço das epidemias.

O interesse de Oseas pelo tema surgiu depois de uma sugestão do professor Gean Melo: por que não estudar os enterramentos em Alagoas? A resposta ganhou sentido a partir das memórias do pesquisador em Murici, quando, nos anos 80, ele acompanhava cortejos fúnebres e percebia o valor cultural desses rituais.

Professor Oseas Batista Figueira Junior
Professor Oseas Batista Figueira Junior

A epidemia de cólera de 1855 foi um ponto de ruptura. De acordo com os dados analisados no livro, cerca de 17 mil pessoas morreram na Província o equivalente a uma parte significativa da população da época. Em Maceió, foram registrados 1.250 óbitos. Para o governo, era preciso agir. Surge então o higienismo: um conjunto de medidas que defendia melhorias sanitárias e novas formas de lidar com a morte.

Uma das mudanças mais marcantes foi o fim dos sepultamentos dentro das igrejas. Para muitas famílias, isso parecia impensável. Enterrar longe de uma igreja significava se afastar de um espaço considerado sagrado, onde se acreditava existir proteção divina. Mas com o aumento de mortes e o medo de contágio, o primeiro cemitério público de Maceió foi construído 1855.

Segundo Oseas, essa resistência não é tão diferente do que vimos durante a Covid-19:

“Há uma dificuldade de pensar no coletivo. Ainda existe a ideia de que o espaço público pode ser usado como se fosse privado. Isso ficou claro na resistência ao isolamento, ao uso de máscara e à vacina.”

O autor destaca que, mesmo com tantas décadas de avanço científico, ainda repetimos padrões:

“Quando olhamos para trás, percebemos que a saúde pública sempre enfrenta o mesmo desafio: convencer a população de que algumas medidas são para o bem comum, ainda há muita desinformação.”

O livro está disponível na plataforma digital editoracrv.com.br , busca mostrar que entender o passado não é apenas questão de memória. É uma ferramenta para compreender o presente. Muitas das discussões que hoje nos parecem novas como políticas de saúde, práticas funerárias e resistência a orientações médicas já fizeram parte do dia a dia dos alagoanos no século XIX.

Mais de cem anos depois, as pandemias voltaram a nos lembrar que ciência, fé e costumes nem sempre caminham juntos. E que aprender com a história pode evitar que velhos erros se repitam quando a próxima crise chegar.

solicite o livro pelo e-mail: oseashistoria@gmail.com
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