Por Samella Velez
A paisagem urbana do Centro de Maceió abriga figuras que transcendem o cotidiano e se tornam parte da identidade cultural da capital alagoana. Entre o fluxo intenso de pedestres e o comércio vibrante, destaca-se João Honorato, um homem que há mais de duas décadas abdicou do próprio nome de batismo para dar vida a um dos maiores ícones da música brasileira. Natural de Viçosa, no interior do estado, João é amplamente conhecido como o Roberto Carlos de Alagoas, uma trajetória que mistura devoção artística, persistência e histórias inusitadas que já fazem parte do folclore local.
A conexão com a obra do Rei começou ainda na juventude, em um momento de epifania musical que mudaria os rumos de sua vida. Ao ouvir pela primeira vez os acordes de Namoradinha de um Amigo Meu, João relata ter sido tomado por uma sensação de felicidade tão genuína que sentiu a necessidade imediata de transmitir esse sentimento ao público. O que começou como uma admiração juvenil evoluiu para uma caracterização completa, transformando o artista em uma figura onipresente nas ruas da capital, onde é abordado constantemente por admiradores que buscam um pouco do carisma associado ao ídolo nacional.

A semelhança e a entrega ao personagem são tão expressivas que já renderam episódios peculiares envolvendo o público. Em uma dessas ocasiões, a confusão entre o artista e o personagem atingiu um nível extremo quando João precisou acionar a Polícia Militar para intervir em uma situação com uma fã fervorosa. A mulher estava convencida de que se tratava do verdadeiro cantor capixaba e se recusava a deixá-lo seguir caminho, sendo necessária a mediação policial para que o cover pudesse se despedir com segurança. O episódio ilustra o impacto que sua presença causa no imaginário popular maceioense.

Apesar da consolidação como cover, a trajetória de João Honorato nas artes é multifacetada e marcada pela versatilidade. Antes de se dedicar integralmente ao repertório de Roberto Carlos, ele explorou diversas facetas do entretenimento, atuando como palhaço, interpretando o personagem Chaves e realizando apresentações em bares da região. João chegou a buscar estabilidade no setor contábil, mas a rotina técnica e burocrática da profissão não foi capaz de silenciar sua vocação artística. Para ele, a arte sempre foi o caminho principal, o que o levou a abandonar os números em favor dos palcos e das ruas.
Essa identificação com o personagem é tão profunda que ultrapassou o campo das artes e chegou à esfera pública. João disputou duas eleições em Alagoas e, de forma estratégica e identitária, registrou-se nas urnas utilizando o nome artístico pelo qual é reconhecido pela população. Ele afirma com convicção que até mesmo seus vizinhos desconhecem sua identidade civil, tratando-o exclusivamente pelo nome do ídolo. Consolidado como um patrimônio afetivo de Maceió, o Roberto Carlos alagoano segue firme em sua missão de espalhar música e alegria, reafirmando que, nas ruas da cidade, ele é o único e legítimo detentor da coroa.






