Por Samella Velez
A história de Marechal Deodoro, em Alagoas, preserva episódios dramáticos que moldaram a formação do território brasileiro, sendo o incêndio da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição um dos marcos mais significativos desse período colonial. No ano de 1633, durante as invasões holandesas ao Nordeste do Brasil, a então Vila de Santa Maria Madalena da Alagoa do Sul tornou-se alvo estratégico devido à pujança de seus engenhos de açúcar, que representavam a principal fonte de riqueza e disputa comercial da época. O avanço das tropas estrangeiras sobre a localidade resultou em uma destruição severa, onde cerca de cem residências foram consumidas pelas chamas, culminando no incêndio da igreja matriz, estrutura que já se impunha na paisagem desde o início do século XVII. O impacto do ataque foi tão profundo que provocou o êxodo de diversas famílias em direção a Salvador e a paralisação total das atividades produtivas nos engenhos da região.

Curiosamente, esse cenário de conflito e devastação acabou gerando o legado documental que permite, ainda hoje, a compreensão da organização urbana e social da antiga vila. A necessidade dos ocupantes holandeses de mapear e documentar os territórios conquistados trouxe para a região artistas e cartógrafos de renome, cujas obras se tornaram as primeiras referências visuais oficiais de Marechal Deodoro. Entre os registros mais importantes está a gravura intitulada Alagoa ad Austrum, de autoria do pintor Frans Post, incluída na obra histórica de Gaspar Barlaeus. O registro detalha a Igreja Matriz posicionada estrategicamente no topo de uma colina, protegida por uma paliçada de troncos de madeira, estrutura comum para a defesa de pontos elevados. A obra de Post também oferece uma visão valiosa do cotidiano da época, ilustrando as casas de pescadores e o acesso ao Porto do Francês, que já exercia papel fundamental na logística local.

Complementando a documentação visual daquele período, o cartógrafo Georg Marcgraf produziu o mapa Pagus Alagoe a Australis, também publicado por Barlaeus, que detalha a organização topográfica da vila em diferentes níveis de terreno. Esses documentos históricos transformam o episódio do incêndio e da invasão em um ponto de virada para a historiografia alagoana, pois, embora o conflito tenha trazido destruição material imediata, ele garantiu a preservação da memória espacial da localidade por meio da arte e da cartografia europeia. Assim, o incêndio da Matriz e a ocupação holandesa permanecem como temas centrais para entender como a antiga Alagoa do Sul resistiu aos embates coloniais para se tornar o berço histórico que é reconhecido nos dias atuais.






