Por Samella Velez
A precariedade da educação em Alagoas no século XIX chegou a impressionar até mesmo o imperador Dom Pedro II durante uma de suas viagens pelo Brasil. Ao passar por Maceió, o monarca registrou em seu diário observações sobre a situação do ensino na então província, destacando as dificuldades estruturais e a limitação do acesso à educação formal. O relato se tornou um importante retrato histórico de um período em que o desenvolvimento educacional alagoano caminhava lentamente, apesar das mudanças urbanas e administrativas que começavam a surgir na região.
Na época, Alagoas vivia transformações ligadas ao crescimento econômico e à organização política da província, mas a expansão do ensino público não acompanhava esse ritmo. As escolas eram poucas, concentradas em determinados locais e incapazes de atender grande parte da população. O cenário revelava uma realidade marcada pela desigualdade social, em que o acesso à educação permanecia restrito às elites econômicas e políticas.
Entre as famílias mais influentes da província, era comum enviar os filhos para estudar em centros considerados mais desenvolvidos, como Recife, Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo. Alguns jovens chegavam até mesmo a concluir os estudos na Europa. Esse movimento contribuiu para que importantes nomes da política, da cultura e da administração alagoana fossem formados fora do estado, enquanto a maior parte da população permanecia distante do ensino regular.
Os poucos colégios existentes não conseguiam suprir a demanda educacional da província. Além da escassez de instituições, também havia debates sobre qual modelo de ensino deveria ser implantado em Alagoas. Um dos episódios que simbolizam essa mentalidade ocorreu durante a gestão do presidente da província, Sá e Albuquerque. Naquele período, ele decidiu encerrar as atividades do Colégio de Educandos Artífices, alegando que os custos da instituição eram elevados para os cofres provinciais.
Antiga Escola Modelo – Construída em 1879 – Acervo MISA
Como alternativa, foi proposta a criação de um colégio voltado para educandos agrícolas. A intenção era preparar jovens para o trabalho no campo, oferecendo apenas noções básicas de alfabetização e práticas ligadas à agricultura. A medida refletia uma visão de educação limitada à formação de mão de obra, distante de um projeto amplo de ensino capaz de promover maior inclusão social e desenvolvimento intelectual da população.
O registro deixado por Dom Pedro II ajuda a compreender como as dificuldades educacionais em Alagoas possuem raízes históricas profundas. A falta de investimentos, a concentração do acesso ao ensino e a prioridade dada à formação voltada ao trabalho rural marcaram a trajetória da educação alagoana durante o século XIX. Mais de um século depois, o episódio ainda desperta reflexões sobre os desafios enfrentados pela educação pública no estado e sobre o peso das heranças históricas que continuam influenciando o presente.






