Por Samella Velez
A história das telecomunicações no Brasil guarda memórias de um tempo em que a conectividade dependia de estruturas físicas espalhadas pelas calçadas e da paciência dos usuários em enfrentar filas. Antes da popularização dos aparelhos celulares e da expansão da telefonia fixa residencial, a comunicação pública era o principal elo entre as pessoas, tendo os orelhões como protagonistas absolutos da paisagem urbana. Em Maceió, essa trajetória ganhou força no início da década de 1970, quando os primeiros telefones públicos, conhecidos como moedeiros, começaram a ser instalados em pontos estratégicos da capital alagoana. Em 1972, o sistema operava com fichas metálicas, exigindo agilidade do usuário para discar e concluir o raciocínio antes que o tempo expirasse e a ligação fosse interrompida.

O design icônico que se tornou símbolo nacional surgiu pouco antes, em 1971, idealizado pela arquiteta e designer sino-brasileira Chu Ming Silveira.

O projeto, oficialmente chamado de Protetor para Telefones Públicos, foi desenvolvido para solucionar desafios específicos do ambiente urbano brasileiro, como o calor excessivo, o ruído constante das vias e a necessidade de alguma privacidade em meio ao fluxo de pedestres. O formato de ovo, que rendeu ao equipamento o apelido carinhoso de orelhão, não era apenas uma escolha estética, mas uma solução de engenharia acústica eficiente para abafar os sons externos e concentrar a voz de quem falava, embora a proximidade nas filas fizesse com que, invariavelmente, partes das conversas fossem compartilhadas com quem esperava sua vez.

A evolução tecnológica trouxe mudanças significativas na forma de interagir com esses aparelhos ao longo das décadas. Nos anos 1990, as antigas fichas deram lugar aos cartões telefônicos, lançados oficialmente em 1992.

Esses cartões não apenas facilitaram o uso do serviço, eliminando o peso das moedas e fichas no bolso, como também criaram um fenômeno cultural inesperado. Com estampas coloridas que retratavam a fauna, a flora e pontos turísticos do Brasil, os cartões tornaram-se objetos de coleção, movimentando um mercado de trocas e preservando registros visuais da época. O orelhão consolidou-se em esquinas, praças e pontos de ônibus, tornando-se uma infraestrutura essencial para a rotina das cidades.

No entanto, a ascensão vertiginosa da telefonia móvel no início dos anos 2000 iniciou o processo de silenciamento desses equipamentos. Com a conveniência do celular, a demanda pelos telefones públicos despencou drasticamente em todo o país. Atualmente, o cenário é de nostalgia e preservação histórica em diversas localidades. Em Coqueiro Seco, na região metropolitana de Maceió, ainda é possível encontrar exemplares dessas estruturas. Embora hoje estejam desativados e não realizem mais chamadas, esses dois orelhões remanescentes permanecem como monumentos de uma era em que a comunicação era um ato público, físico e repleto de interações sociais, servindo como testemunhas silenciosas da rápida transformação tecnológica da sociedade brasileira.






