Maceió, 13 de agosto de 2026

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Guerra do Caju: o conflito histórico pelo fruto no Nordeste

Guerra do Caju

Por Samella Velez

Muito antes de o Brasil ser oficialmente constituído como nação, o território que hoje compreende o litoral nordestino, incluindo o estado de Alagoas, foi palco de intensas disputas territoriais conhecidas como Guerras do Caju. O fruto, nativo da região de Pindorama, era considerado um recurso estratégico de altíssimo valor para os povos originários, como os Caetés, funcionando como pilar da segurança alimentar e da organização social. Durante os períodos de safra, era comum que tribos residentes no interior do continente realizassem migrações sazonais em direção à costa para garantir o acesso aos cajueiros. O controle dessas áreas não representava apenas o domínio sobre um alimento rico em nutrientes, mas também a soberania sobre a produção de bebidas fermentadas e a própria sobrevivência das aldeias, transformando a colheita em um motivo de confrontos bélicos entre as etnias indígenas.

A importância do cajueiro transcendia a questão nutricional e estava profundamente enraizada na cultura e na noção de temporalidade desses povos. Para muitas tribos, a floração da árvore servia como um marcador cronológico preciso, sendo utilizada para a contagem da idade dos indivíduos e a passagem dos anos. A tradição consistia em guardar uma castanha para cada ciclo de vida completado, estabelecendo uma conexão direta entre o ritmo da natureza e a existência humana. Com a chegada dos colonizadores europeus no século 16, o fruto despertou o interesse dos navegadores portugueses, que foram os responsáveis por levar a espécie para outras partes do mundo. No entanto, foi durante o período da ocupação holandesa no Nordeste brasileiro que o caju ganhou um status jurídico e econômico ainda mais rígido sob o olhar estrangeiro.

Indígena e a importância do Caju
Indígena e a importância do Caju (Imagem gerada por IA)

Em 11 de julho de 1641, o Alto Conselho Holandês emitiu uma resolução que proibia terminantemente o corte de pés de caju em território dominado pela Companhia das Índias Ocidentais. O descumprimento da norma acarretava uma pesada multa de cem florins para quem derrubasse uma única árvore. Embora o registro oficial da época justificasse a medida como uma forma de preservar o “importante sustento dos índios”, historiadores apontam que a decisão era movida por interesses puramente pragmáticos e militares. Os holandeses compreendiam que a manutenção dos cajueiros era essencial para alimentar suas próprias tropas e para manter as populações indígenas sob vigilância e controle dentro do território. Além disso, a versatilidade do fruto, que permitia a fabricação de doces, vinhos, farinhas e o aproveitamento da castanha, já vislumbrava um mercado de exportação para a Europa, consolidando o caju como um elemento central na formação cultural e econômica do Brasil.